E se um arqueólogo da USP encontrasse na sua horta uma machadinha de agricultura indígena e alguns cacos de cerâmica perfeitamente identificáveis como panelas de barro feitas pelos índios que habitavam a aldeia que existiu onde hoje é a sua casa? O que você faria?
Vez ou outra, um episódio desses me surpreende... Penso que minha atração pela cultura indígena funciona ao revés, e por si, atrai essas coisas incríveis!
Guardei minha machadinha e os meus caquinhos com muito carinho...Quem sabe um dia encontram o seu destino?
Na adolescência, considerei algo da maior importância aprender a falar Tupi-Guarani. Desde a infância, o projeto de ser escritora me consumia um tempo de leitura e de preparação cultural, dentro de um contexto que era gerido segundo minhas próprias afinidades e prioridades. No meu entendimento infantil, escritor deveria ser culto! Como entender o Brasil, então, falar sobre ele, e com espirito genuinamente brasileiro, excluindo a cultura indígena? Muito infelizmente, não encontrei quem me ensinasse o Tupi-Guarani, nem mesmo um dicionário! Mas, esse desejo de aprendizagem ficou perambulando pelo meu coração... E as memórias do Brasil ameríndio também... Vez ou outra, correspondia aos apelos desta brasilidade mestiça que me premiou com uma bisavó tapuia legítima, vinda de uma aldeia indígena no norte de Minas Gerais...
Uma das mais prazerosas atividades da minha vida de adolescente em São Paulo era visitar o Pátio do Colégio. Ficava ali sentada na porta da capela, pensando em como era a semente desta gigantesca cidade, no tempo de Anchieta....Não era difícil imaginar...Ouvia as incríveis histórias de minha outra avó paulista, descendente de italianos...Ela, ainda criança, atravessava o Viaduto do Chá, quando ele era de madeira, singelamente suspenso sobre o famoso Vale do Anhangabaú, onde realmente havia uma linda plantação de chá!
A maquete acima, do Museu de Anchieta, tem um pontinho branco bem no centro: o Pátio do Colégio...
A vida foi passando e tantos desafios se me apresentaram, que a primeira história fundada na cultura indígena do Brasil, - Apiatã - foi escrita aqui em Uberaba, em maio de 2006, quando cheguei a esta cidade. Mais precisamente, no Mosteiro da Glória, onde fiquei hospedada por um período. Iria, nesta ocasião, fazer uma contação de histórias no Oásis (Organização dos Amigos Solidários Infância e Saúde) e gostaria de apresentar algo novo...Assim nasceu Apiatã, uma história sobre a coragem de ser e a alegria de viver. Apiatã, um menino índio e sua incrível aventura, para ser contada na roda da aldeia...
A escola indígena é realmente uma roda, onde cada qual conta a história do seu dia... Onde o pajé conta a história da criação do mundo, onde se desfiam as narrativas da longa história da própria aldeia, dos povos indígenas...Essa cultura oral fundada na experiência, essa aprendizagem centrada na vivência, no sentimento compartilhado, na emoção solidária, é um legado extraordinário dos nossos índios para nós... Um fio que não pode ser rompido, afinal, não foi o Padre Manoel da Nóbrega, também, um contador de histórias? Ele e Anchieta contaram para os indios do Brasil nascente, a linda história do nosso futuro...E eles acreditaram!
Estamos até hoje tentando fazer esse país gigante se tornar um exemplo de amor e de paz para o mundo inteiro...
Grande e fraterno abraço,
Rita De Blasiis
Teatro e outras reflexões vitais
Espaço para compartilhar pesquisa e reflexão. Trocas substanciais e divertidas: afinal, o Universo é movido a troca, e a vida só subsiste porque se transforma...
sábado, 21 de agosto de 2010
sexta-feira, 28 de maio de 2010
Matas de Sertânia - OST - 40x32cm. Guilherme Carvalho ®

Matas de Sertânia - OST - 40x32cm. Guilherme Carvalho ®
Upload feito originalmente por GuiCarvalho Portfolio
Compartilhar beleza pura é mineirice que a gente não abre mão...
quinta-feira, 1 de abril de 2010
A Lua de Li Po
Li Po viveu no século VIII, "dizem que Li Po morreu afogado tentando abraçar a Lua. [...] Em quase todos os seus poemas a lua aparece, clara e próxima, como se realmente fossem dois companheiros de mãos dadas, entre jardins e lagos, palácios, montanhas e rios". (Cecília Meireles)
Amo esses Poemas Chineses traduzidos pela Cecília Meireles... Ouçam: Com a taça na mão, interrogo a Lua... Li Po e Villa-Lobos...Prelúdio nº 4.
quarta-feira, 31 de março de 2010
terça-feira, 30 de março de 2010
Lembrança de Tadashi
No silêncio da noite, como a emergir da quietude, a lembrança de Tadashi Endo aflorou em minha mente.
A experiência de trabalhar com ele durante uma semana numa oficina de Butoh-Ma é indescritível.
Duas vezes nos encontramos em Barão Geraldo, num grupo muito especial na sede do Lume.
Durante um momento de intervalo, nos mostrou um vídeo, de um espetáculo em que ele dançava Ne me quitte pas. A coreografia era belíssima, mas o que a tornava extraordinária era o grau de sensibilidade com que ele traduzia a essencia da alma feminina e suas nuances mantendo a sua identidade. Era tão belo e intenso que chorei o tempo todo. Alguns anos depois, quando ele voltou ao Brasil, após a segunda oficina que fizemos, tivemos oportunidade de assistir o seu espetáculo em São Paulo. Ao final, a platéia pediu bis e ele aquiesceu...Se posicionou, olhou para mim, colocada numa fresta entre vários espectadores em pé e não repetiu nenhum número do espetáculo. Iniciou o Ne me quitte pas.
Suspenso no tempo, ele ficou, como a memória de todas as coisas que jamais se perdem no fragor da batalha.
A experiência de trabalhar com ele durante uma semana numa oficina de Butoh-Ma é indescritível.
Duas vezes nos encontramos em Barão Geraldo, num grupo muito especial na sede do Lume.
Durante um momento de intervalo, nos mostrou um vídeo, de um espetáculo em que ele dançava Ne me quitte pas. A coreografia era belíssima, mas o que a tornava extraordinária era o grau de sensibilidade com que ele traduzia a essencia da alma feminina e suas nuances mantendo a sua identidade. Era tão belo e intenso que chorei o tempo todo. Alguns anos depois, quando ele voltou ao Brasil, após a segunda oficina que fizemos, tivemos oportunidade de assistir o seu espetáculo em São Paulo. Ao final, a platéia pediu bis e ele aquiesceu...Se posicionou, olhou para mim, colocada numa fresta entre vários espectadores em pé e não repetiu nenhum número do espetáculo. Iniciou o Ne me quitte pas.
Suspenso no tempo, ele ficou, como a memória de todas as coisas que jamais se perdem no fragor da batalha.
domingo, 28 de março de 2010
CARTA ABERTA PELO FIT - BH 2010
Embora residindo em outras cidades, fui a Belo Horizonte para assistir a alguns Festivais Internacionais de Teatro e participei, também, de vários Encontros Mundiais de Artes Cênicas. Registro, portanto, com consciência da dimensão e do valor deste trabalho, que já conta dezesseis anos de existência, o meu apoio ao movimento dos artistas da cidade e de todo o Brasil, em favor da realização do FIT – BH em 2010.
A decisão governamental de suspender o FIT deste ano extrapola a instância municipal e fere o contexto artístico nacional, - o trabalho é realizado na cidade, mas, é para o país!
Belo Horizonte solapa o edifício que constrói quando não honra as devidas normas de edificação. A tarde cair como um viaduto só é interessante na canção, na vida real, isso é pura insegurança, desrespeito ao trabalho do artista e à própria arte. Então, pode ser assim, o Festival se realiza quando a Prefeitura -via Fundação Municipal de Cultura - “quiser”, porque pode "decidir" fazer ou não fazer? Na França isto funcionou, mas antes da Revolução de 1789... Le Etat ce moi! não cabe nesta circunstância regida por uma Lei Municipal, a Lei nº 9517, de 31 de janeiro de 2008.
A tradição, todos nós sabemos, tem sua força na manutenção de sua própria identidade e função e, por outro lado, na transformação desta mesma identidade, com o passar do tempo, ao redirecionarem-se seus objetivos, processos e resultados. A cultura se constitui assim, mas, com uma exigência de sabedoria: quando modificar e quando preservar? Nunca modificar em detrimento da cultura, esse é um parâmetro inalienável! A cultura é que nos faz humanos, é a marca maior dessa humanidade; sempre que a violamos, essa violência redunda em conseqüências indesejáveis.
Sobretudo, é preciso reconhecer que o artista, o grupo de teatro, o técnico em cenotecnia, sobrevive de seu próprio trabalho como qualquer profissional. Não é possível ser profissional com preparo técnico adequado e repertório, se, em tempo integral, esse profissional não se dedicar constantemente ao seu próprio preparo e trabalho, retirando dele, permanentemente também, o seu sustento. O desrespeito mediante a não realização do FIT – BH 2010, portanto, é dirigido a uma classe profissional que precisa de estabilidade, precisa sobreviver no mercado de trabalho como outra classe profissional qualquer.
Tive a felicidade de residir em Belo Horizonte durante 22 anos. Mudei para esta cidade encantadora em 1970, portanto, durante este período me foi possível acompanhar o singular movimento cultural que deu rumos à vida cultural de Belo Horizonte. Todo o excepcional trabalho realizado pela classe artística local e pelas políticas públicas definidas a partir de mobilizações desta mesma classe ou de iniciativas governamentais, definiu sua identidade até que a capital de Minas se consolidou como um dos mais importantes centros de produção artística e cultural do país. Não é necessário citar nomes de pessoas ou de grupos, de instituições ou de movimentos artísticos e culturais para referendar a relevância cultural de Belo Horizonte no cenário nacional e mundial. Ela é patente e merece, sim, o devido respeito!
A articulação local e de todos que trabalham com arte e cultura no país, -em favor do FIT-, precisa prosseguir em nome, sobretudo, do dever que temos de lutar pelas leis que ajudamos a construir. Sempre que a lei não é cumprida e a sociedade se omite, retrocedemos na história. O princípio da “decisão pessoal” em detrimento da justiça, fez D. Maria I crer que tinha o direito de mandar matar Tiradentes. Minas Gerais e sua destinação histórica!...
O compromisso de Minas diante do Brasil é de honrar a bandeira que levanta muito alto, sobre as Alterosas: não há Liberdade sem respeito ao cidadão, sem respeito à Lei. Belo Horizonte não é um fundo de quintal, é o lugar onde a história deve explicitar com que seriedade tudo isso deve ser tratado. A dignidade da cultura, o valor da arte e o desenvolvimento artístico-cultural da cidade, carreando consigo o contexto do país, estão expostos na vitrine do mundo. Todos esperam que o governo municipal tenha maior sensibilidade e reconsidere sua posição, até mesmo porque, também, não lhe convém esse papel e suas conseqüências.
Que se unam todos, pois, numa atitude de diálogo e consenso, avaliando melhor as posições e honrando tudo aquilo que por direito e tradição deve ser respeitado , sobretudo, em Minas Gerais, Minas Gerais, a inolvidável terra de Tiradentes: Libertas quae sera tamem, Liberdade ainda que tardia, mas nunca, por opção, tardia!...
Rita De Blasiis
quarta-feira, 24 de março de 2010
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